terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

COMO AUMENTAR O NÚMERO DE TRANSPLANTES NO BRASIL?

   O transplante de um órgão é, em muitos casos, a única alternativa terapêutica em pacientes portadores de insuficiência funcional terminal de diferentes órgãos essenciais. 
   Nos últimos anos observou-se no Brasil e em outros países um aumento preocupante da desproporção entre a demanda de órgãos para transplante e o número de transplantes realizados. Há, neste sentido, uma grande mobilização das autoridades médicas brasileiras para que as discrepâncias entre demanda e oferta de órgãos sejam minimizadas, o que reduziria o tempo médio de espera em filas, e sobretudo reduziria a mortalidade enquanto se aguarda por um órgão novo.
  Verifica-se que muitos dos problemas de oferta estão associados a falhas nos processos de reconhecimento da morte encefálica, de abordagem familiar e de manutenção clínica do doador falecido. Embora pareçam óbvias, as medidas a serem tomadas para manutenção adequada do doador falecido, não se observa em grande parte das unidades de terapia intensiva brasileiras a devida valorização do problema, fato evidenciado pela ausência quase absoluta da sistematização do atendimento ao potencial doador de múltiplos órgãos. Trata-se de algo que suplanta a esfera técnica, uma questão humanitária e de cidadania de todos os atores envolvidos na manutenção do potencial doador falecido, dentre os quais o médivco intensivista deve exercer um papel de liderança.
   A carência de evidências mais robustas sobre o tema ressalta a importância de orientações formais (ainda que meramente consensuais em muitos aspectos) para que se proporcione o mínimo de homogeneidade na manutenção do potencial doador falecido.
   A padronização e a celeridade destes procedimentos estão claramente associadas ao aumento do número de órgãos transplantados, à diminuição de perda de doadores por colapso cardiovascular e ao aumento da sobrevida pós-transplante.
  Após a realização do diagnóstico de morte encefálica e obtenção do consentimento para doação de órgãos, todos os esforços devem ser realizados para a efetivação do transplante o mais rápido possível. É comum ocorrer a perda de doadores falecidos nos momentos que antecedem a retirada dos órgãos em razão da demora na realização do diagnóstico e do atraso provocado por aspectos administrativos e assistenciais.
  Em relação aos aspectos assistenciais, infelizmente poucos potenciais doadores de órgãos são manuseados de forma ótima pela equipe responsável pela manutenção do doador falecido. É fundamental a instituição rápida e agressiva das medidas de manutenção para manter as funções corporais de acordo com metas terapêuticas definidas e reverter eventuais disfunções orgânicas. O período de 12 a 24 horas é considerado adequado para o cumprimento dos aspectos burocráticos e reversão de disfunções orgânicas. Neste período são essenciais atitudes rápidas, agressivas e coordenadas.
   No Brasil temos muito a comemorar no que se refere a transplantes de órgãos. Temos o maior programa público de transplantes do mundo, perdemos apenas para os Estados Unidos da América em número de transplantes realizados. Mas infelizmente ainda temos muito a melhorar! É inadmissível que tenhamos mortalidades elevadíssimas, em filas de espera de órgãos, enquanto o percentual de aproveitamento dos potenciais doadores está ao redor de 30%, cerca de metade do que observamos na Espanha e Estados Unidos.
   Num cenário onde o percentual de descarte de potenciais doadores e a mortalidade na fila de espera por um órgão são muito elevados, é inadmissível que simplesmente observemos tacitamente esta crítica situação. Não podemos continuar observando pessoas morrendo enquanto esperam por um órgão que não vai chegar a tempo, enquanto estamos jogando órgãos no lixo!

Este artigo é uma colaboração do Dr. José de Oliveira Lima Junior para este blog .
Especialista em Cirurgia Cardiovascular pela SBCC, Doutor em Medicina (Cirurgia Cardiovascular pela USP), Médico da Divisão de Cirurgia Cardiovascular do Incor/FMUSP, Coordenador da Comissão de Remoção de Órgãos da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Atuação principalmente nas áreas: Tratamento cirúrgico da Insuficiência Cardíaca, Transplante Cardíaco e Assistência Circulatória Mecânica.

Nenhum comentário:

Postar um comentário